
* Publicada no Jornal Diário do Nordeste, em 08/02/09
ENTREVISTA - SULIVAN MOTA
Tivemos que criar um olhar para a família da criança
Sulivan Mota é um pediatra que luta contra a miséria que debilita o desenvolvimento de crianças. Este mês, completa três anos à frente do Iprede, onde estimula pesquisas para transformá-lo em um centro de referência da primeira infância, que une ciência e família.
Completando três anos à frente do Iprede, é possível dizer em que a instituição mudou em sua gestão?
A instituição evoluiu como qualquer trabalho, como qualquer processo. O Iprede teve de início, e perdurou por duas décadas, o objetivo de recuperar peso de crianças desnutridas e ainda se faz necessário. É uma ação que se fez durante muitos anos como única e que continuamos fazendo e fica incompleta diante do contexto que a desnutrição leva ao ser humano. Quando nós quebramos a natureza, seja orgânica ou ambiental, nós temos um grande tributo a pagar. Mas ocorre que, nos distúrbios da nutrição, o mais conhecido é o déficit chamado de desnutrição, mas a rigor tanto pode ser para o déficit como para o excesso. Porque o sobrepeso e o obeso também têm uma nutrição inadequada, está com o déficit de nutrientes adequados.
Vocês agora atendem caso de obesos?
Na adolescência vamos encontrar mais freqüentemente sobrepeso e numa taxa que já nos preocupa muito, 20% de nossa população de escola pública de Fortaleza com sobrepeso e/ou obesidade. Preocupante porque estamos falando de estudantes de escola pública de um país em desenvolvimento com taxas iguais a de países desenvolvidos. Enquanto a curva da desnutrição vem descendente, a curva da obesidade vem amplamente ascendente. O Iprede tinha que ter esse prisma, e hoje nós constituímos uma equipe que tem um pediatra, nutrólogo, endocrinologista, fonoaudiólogo, nutricionista, educador físico para atender a criança com sobrepeso. O Iprede é hoje o único local que presta este serviço de forma gratuita de Fortaleza.
Há mais mudanças?
Hoje nós trabalhamos no desenvolvimento da criança. Outro aspecto é que verificando que, mesmo se trabalhando com a crianças no contexto do desenvolvimento amplo (alimentação, estimulação, cuidados com a saúde, vacinação...), ela é incapaz de transformar sua situação social. E as mais de mil crianças atendidas pelo Iprede estão abaixo da linha da pobreza, nós atendemos a miséria, que é uma anormalidade. O ser humano considera normal aquilo que é habitual, temos que acabar isso dentro da gente. Neste sentido tivemos que criar um olhar para a família. Nosso foco é a criança, mas temos que trabalhar para que essa criança seja um adulto saudável em todos os sentidos e para que aquela família cresça.
Como a família é trabalhada?
Fazer com que a família possa gerar rendas é nosso foco e assim trabalhamos principalmente com a cuidadora, que geralmente é a mãe. Nós criamos a trajetória feminina, porque entre as mil mães temos dois ou três homens. Quando se trabalha com as mulheres, elas reagem imediatamente. Vocês são fantásticas! E ela reage por menos dinheiro que ganhe. Ela aconchega os filhos, aproxima e com eles evolui. Atuamos com elas em seis campos: autoestima, socialização, alfabetização, profissionalização, empreendedorismo e a empregabilidade. Infelizmente aprendemos com insucessos, porque começamos errando em cada uma das etapas.
Vocês empregam as mães?
Essa profissional hoje tem seu cadastro aqui e nós vamos junto às empresas, indicando os profissionais e assinando carteiras, de forma terceirizada pelo Iprede. Pelo menos um ano após o atendimento, essa família é acompanhada. Temos outra ação, que considero uma grande mudança, porque conseguimos passar a fazer o Iprede com quem dele recebe assistência, ou seja, os cuidadores das crianças. Antes, a mãezinha pegava seus alimentos, seu remédio e ia embora. Agora, existem seis grupos distintos que vêm uma vez por semana trabalhar nas mais diversas áreas dentro do Iprede. E recebem um pouquinho, não tanto como numa empresa, mas 20 reais por cada dia de trabalho.
Os cursos acontecem no Iprede?
A maior parte, sim, mas já tivemos convênio com Sebrae, Senai, Banco do Brasil. O Iprede está formando a Unidade de Treinamento e Profissionalização, que terá máquinas de costura; salão de beleza aberto ao público. Será uma área de serviços, que também vai ter aviamentos e consertos de panelas. A mãe ganha, o Iprede ganha e a sociedade ganha.
Como o senhor conseguiu reerguer o Iprede e aumentar seus serviços sem qualquer aporte maior do que já existia na gestão anterior?
O Iprede teve muitas dificuldades, eu era voluntário na época, e confesso que acompanhei de perto o que essas diretorias lutaram com unhas e dentes para salvá-lo. Tivemos alguns aportes que não é recurso em dinheiro, mas que leva à confiabilidade. O Iprede quando tinha internamento tinha 157 funcionários, na medida em que deixamos o serviço - porque não é necessário - não gastamos nem 1% do que antes. Hoje temos convênio com hospitais públicos, onde treinamos todo o pessoal para receber o desnutrido. Atualmente temos uma despesa média de 250 mil reais por mês, com internamento seria 400 mil reais. Antes de nós assumirmos, já havia fechado as enfermarias e nós criamos no local um Centro de Ensino e Pesquisa, onde temos credenciamento com a Universidade Federal do Ceará (UFC), com a Unifor (Universidade de Fortaleza) e FIC (Faculdades Integradas do Ceará). Por exemplo, toda a intervenção na criança que já tem déficit é feito por um grupo que vem do Nutep da UFC e temos, aí, 13 profissões que vem de lá, não tem custo para o Iprede.
Só os profissionais fizeram diferença no atendimento?
Nós conseguimos com o SUS o credenciamento de atendimento. O Brasil inteiro sempre recrimina o SUS por pagar muito mal, uma consulta de R$ 2,50. Isso, embora tenha aumentado, ainda existe. Mas, no contexto global, o SUS atende bem. Eu me queixo um pouquinho do atraso. Hoje, o SUS, dentro dessa despesa, de 200, 210 mil reais por mês, nos cobre um terço, o que é muito bom e não existia antes. Ou seja, 60, 70 e até 80 mil reais por mês, quando não se tinha nada antes. Com os convênios com as universidades, nós trouxemos profissionais que deixamos de pagar; também podemos fazer cursos certificados pelas universidades.
É geração de renda?
A preocupação em fazer com que o Iprede gere recursos existe desde o primeiro dia que assumi e percebi que já estávamos com 18 anos e tínhamos que trabalhar, já era a idade de ir para rua e produzir e não só de pedir. Temos aqui hoje três cursos de especialização ocorrendo dentro de estudo, todos certificados pela UFC, mas que deixam recursos para o Iprede, desde o aluguel de salas, uso de equipamentos. Temos também uma cozinha industrial, toda construída de acordo com as exigências da Vigilância Sanitária, que nos dá a possibilidade, não só de produzir alimentos (nós produzimos diariamente 360 refeições para as mães e as crianças e 100 refeições para quem trabalha aqui), mas também de gerar recursos. No fim da noite, nós distribuímos mais 600 refeições, nas praças públicas, para os sem-teto que estejam em atividade dentro de programas da Secretaria de Esporte e Cultura do Estado, por convênio. E temos um laboratório de informática, que serve, tanto para profissionalizar as mães, como também pode ser alugado por empresas.
O Iprede é autosuficiente?
Não lhe digo que nós já temos recursos para manter o Iprede, mas nós começamos a gerar esses recursos e eu quero que o Iprede seja uma grande instituição, não só no sentido de assistir, mas no sentido de formar profissionais também. A miséria é tão anormal que geralmente, no começo, as expressões dos estudantes é de espanto e, com certeza, nesse contato diário com esse sofrimento, com essas dificuldades, com essas limitações impostas pela pobreza maior, eles estão crescendo. Eu não acredito que o aluno vai sair o mesmo que entrou. Então o convênio com as universidades não só nos dá credibilidade para conseguir projetos, financiamento de programas, mas também para influir na formação desses futuros profissionais.
O senhor acredita que este é um modelo a ser aplicado em outras instituições?
Sim, eu acredito que todas as instituições que já tenham acumulado conhecimento, como o Iprede, que tem 22 anos tratando de problemas sociais e nutricionais, têm muita experiência que não pode ficar retida. Tem que dar a oportunidade de outros conhecerem, os bancos de dados, as relações sociais, as dificuldades de desenvolvimento dos projetos e programas tanto na área social como na área da saúde.
Em que direciona o trabalho?
O foco é a criança. Mas o Iprede está junto ao Unicef com dois grandes desafios. O primeiro é virar um centro de referência de atenção multiprofissional à primeira infância. Temos como referência no mundo um no Canadá e o Unicef está vendo como a gente pode se espelhar o máximo possível, manter uma relação estreita. O primeiro mundo investe pesado na primeira infância, com a certeza absoluta de que a criança é o maior patrimônio da sociedade. Na primeira infância acontece a estruturação do homem em nível orgânico, afetivo, emocional, motor, cognitivo. Na maior parte, nos primeiros três anos, é quando temos em torno de 80% de nossas células desenvolvidas.
Os estudos que são feitos aqui direcionam o trabalho?
Sim, porque a partir dele começa a investir muito mais na mulher e na família. E o Unicef quer fazer daqui um centro de referência da primeira infância. A outra idéia é dividir o conhecimento, porque muitos municípios, e até países como Cabo Verde, nos perguntam qual a tecnologia que utilizamos para evitar a desnutrição na primeira infância. Nós podemos treinar profissionais e formar um mediador do desenvolvimento da primeira infância. Quem vai ser o mediador? Pessoas como as nossas mães, a exemplo dos agentes de saúde.
O senhor está aqui praticamente todos os dias como voluntário, a ponto de fechar seu consultório por falta de tempo. O que motiva suas ações?
No sentido de me realizar como ser humano. Temos que repassar para os outros tudo aquilo o que recebemos. Porque se formos ver dentro da pirâmide social, estamos lá na pontinha de cima. A partir de uma pequena parte do conhecimento da vida, nós termos relações amorosas, afetivas, família constituída, eu não quero falar de nada material. Não que eu não valorize, porque a estabilidade também vem pela matéria. Eu acho que não a devemos perseguir, para mim é luxo.
O senhor é religioso?
Eu sou, acho que todo ser humano tem que ter uma religião. concordo muito com o papa Bento XVI quando perguntaram a ele: ´quantos caminhos tinha até Deus?´. E ele respondeu: ´tantos quantos forem os homens formem a humanidade´. Cada homem faz seu caminho para chegar a Deus. E a religião é fundamental para trilhar esse caminho, mas nenhuma religião vai dizer que é absoluta, que é única, que é a verdade. Eu sigo a doutrina espírita e tenho muita convicção, mas com respeito absoluto às outras.
O senhor é um gestor ou um agregador?
Eu tenho certeza e boto a mão no fogo sem queimar, sou um bom agregador. Se eu fosse gestor, teria sido na vida privada. Algum tempo atrás resolvi abrir um negócio e a idéia, por mais maravilhosa que seja, tem que ser evoluída e instalada por um bom gestor. Eu ´quebrei em pedaços´, mas nada como o tempo. Esqueci a vida privada!
ADRIANA SANTIAGO
Editora