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13/10/2008 - Diário do Nordeste: Ceará é o 10º em mortalidade

 
 

Por Diário do Nordeste

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*Matéria publicada no Diário do Nordeste, em 13/10/08

ATENDIMENTO INFANTIL

Ceará é o 10º em mortalidade



Mortalidade infantil caiu no Ceará, mas o Estado ainda possui a décima maior taxa em todo o País


Ao longo desses 20 anos de vigência, o Sistema Único de Saúde (SUS) dedicou-se a uma empreitada nobre, porém difícil: garantir a saúde dos usuários mais vulneráveis - as crianças. Em 1987, de cada mil meninos e meninas nascidos vivos no Brasil, 120 morriam antes de completar um ano. Hoje, entre mil que nascem no Ceará, 27 morrem durante o primeiro ano de vida, segundo os indicadores de mortalidade do Ministério da Saúde. Apesar de o Ceará ser o Estado nordestino com a menor taxa de mortalidade infantil, no cenário nacional, ainda temos a 10ª maior taxa, entre os 27 estados da federação.


Os filhos do SUS estão mais resistentes à diarréia, ao sarampo e à pneumonia. Entretanto, eles enfrentam outros riscos como infecções, partos prematuros e doenças congênitas, que mudaram o perfil da mortalidade infantil. As patologias que acometem os pequenos usuários são graves e, pela falta de assistência ou de equipamentos, podem limitar o tempo de vida desses recém-nascidos a apenas seis dias.


Conforme os indicadores e dados básicos do Ministério da Saúde de 2005, das crianças cearenses que morrem antes de completar um ano, 14 não vivem por mais de uma semana. Para muitas mães, cada dia ao lado dos filhos é uma vitória. A dona-de-casa Jamyla Nagly Benício da Silva, de 23 anos, considera-se uma vencedora por estar hoje com seu primogênito nos braços, o pequeno David Berg, de três meses.


Nascido prematuro, David sempre apresentou saúde frágil. Em setembro, foi hospitalizado com diarréia. O menino chegou à UTI e os médicos desenganaram os pais sobre seu quadro clínico. Com pouco peso, baixa imunidade e pneumonia, o filho de Jamyla ficou 22 dias internado no hospital Waldemar Alcântara. “Eu achava que ele ia morrer”, lembra.


A história de David teve um final feliz. Gestores da saúde e sociedade querem que casos como este não sejam exceção, mas regra. Porém, há um longo caminho a percorrer. “Com a reforma do sistema, a mãe e a criança se tornaram prioridades, mas a grande preocupação agora são as mortes perinatais, por prematuridade, infeções ou doenças congênitas”, adverte Tati Andrade, oficial para a saúde do Unicef.


Na linha de frente contra a mortalidade, atuaram os agentes comunitários, que surgiram ainda em 1987, e também as pastorais da criança da Igreja Católica.“Com os agentes e a melhoria da saúde básica, reduziu-se as mortes por causas facilmente evitáveis”, avalia Tati Andrade. Com uma fórmula simples: um copo de água, uma medida rasa de sal e duas medidas rasas de açúcar, eles transformaram a realidade.


Agora, a situação é mais complexa e exige investimentos como a ampliação do número de UTIs neonatais e a diminuição da pobreza, pois as crianças que não morrem, vivem de forma miserável. Tati Andrade observa que o cenário atual não apaga as vitórias do passado, como os 32% de redução da taxa de mortalidade infantil no Ceará, em 1990, e os 41,2% de diminuição alcançados entre os anos de 1999 e 2006.


Segundo a Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), no ano passado, a taxa de mortalidade de crianças com menos de um ano de vida foi de 16,1. Porém, conforme Cícera Moura, supervisora do Núcleo de Informação e Análise em Saúde da Sesa, a investigação de óbitos de crianças no Ceará não é considerada boa pelo Ministério da Saúde. “Temos 80% de cobertura de investigação de óbitos e de nascidos vivos”.


Por causa disso, o Ministério trabalha com uma estatística que tenta corrigir as sub-notificações e apresentar um dado fiel da realidade. Daí, as diferenças entre as taxas apresentadas pela Sesa, pelo MS e pelo próprio Unicef.


ALIMENTAÇÃO - Desnutrição ainda é desafio para a saúde


Ao lado da mortalide infantil, a desnutrição é outro desafio para o sistema de saúde no Estado. Em 1987, cerca de 35% das crianças apresentavam algum tipo de desnutrição (aguda ou crônica), segundo dados do Instituto de Prevenção à Desnutrição e à Excepcionalidade (Iprede). Atualmente, segundo o Unicef, 5,2% das crianças cearenses, com menos de dois anos, estão ainda desnutridas. O que coloca o Ceará como o sexto no País em desnutrição e o terceiro do Nordeste.


A nível nacional, 3,5 das crianças apresentam pouco peso. A perspectiva para os próximos 10 anos em todo o Brasil é de que a desnutrição se torne residual, com indicadores ainda mais baixos. Entretanto, para que isso aconteça, é necessária a mudança no perfil de tratamento da questão, levando-se em consideração as características sócio-econômicas das famílias.


“A clientela do Iprede não é pobre, é uma clientela abaixo da linha da pobreza. São filhos de catadores de lixo e desempregados. É o resíduo da sociedade cearense”, avalia o diretor técnico-científico da instituição, Álvaro Madeiro Leite. Não é só a falta de alimentos que acomete essas famílias, é também a violência doméstica, o desemprego e problemas de saúde mental e afetiva. “Essas mulheres têm uma vida sem sonho, que acaba se refletindo nos filhos”, afirma o médico.


Por um certo tempo, a dona-de-casa, hoje mãe colaboradora do Iprede, Cláudia Maria da Silva França, de 36 anos, deixou de sonhar. Depois de dois abortos espontâneos, ela viu o desejo de se tornar mãe distante. Há três anos, ela concretizou o sonho, quando nasceu seu primeiro filho, Francisco Márcio da Silva e, logo em seguida, veio o segundo, Vitória Maria da Silva, hoje com um ano e sete meses.


A mãe teve dois partos prematuros e as crianças, consequentemente, nasceram abaixo do peso normal, o que a levou ao Iprede. Cláudia está há quase um ano atuando como mãe colaboradora em um projeto da instituição que tem o intuito de oferecer oportunidade de complementação de renda para as mães de crianças em tratamento. “A desnutrição agrega outros problemas, como o de mulheres sem emprego, sem companheiros ou vítimas de violência”, explica Álvaro Leite.


Ele avalia que a organização do SUS foi de extrema importância para a redução dos indicadores da desnutrição, mas acrescenta que é preciso agora ampliar o raio dessa atenção, sem perder de vista o lado social do atendimento, o que requer políticas integradas com educação e geração de renda. “A sociedade não pode evoluir se não cuidar da primeira infância e dos pais”.


País está perto do objetivo do milênio


O Brasil se comprometeu junto à Organização das Nações Unidas (ONU) em diminuir em dois terços a mortalidade infantil de 1990 a 2015. Esse compromisso faz parte do quarto objetivo do milênio, que serve de parâmetro para os gestores públicos direcionarem suas ações. O progresso foi significativo. De 1990 a 2006, a redução da mortalidade infantil a nível nacional foi de 44,9%. Segundo o Unicef, a queda do indicador está diretamente atrelada à melhoria da segurança alimentar e nutricional, ao aumento da cobertura de saneamento básico e de vacinas e à mudança no modelo de atenção à saúde com o Programa de Saúde da Família (PSF). Porém, as crianças pobres têm mais do que o dobro de chance de morrer do que as ricas, e as nascidas de mães negras e indígenas têm maior taxa de mortalidade. Na região Nordeste, a taxa de mortalidade infantil é quase 50% mais alta que a taxa nacional. A média brasileira é de 21,2 crianças que morrem para cada mil nascidos vivos, já a média nordestina é de 31,6 mortes.


NAIANA RODRIGUES
Repórter



 

 

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O Projeto Vida realiza, desde 2006, atendimento de 50 crianças por ano com desnutrição grave. É mantido pela Associação Etica Onlus, de Bergamo-Italia.

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